O presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG), Nelson Paim, lamenta que as autoridades brasileiras ainda ignorem a proposta da entidade para incluir a pulverização aérea na guerra contra os Aedes aegypti. “A maior parte das cidades brasileiras cresceram de forma irregular e são deficientes em infraestrutura de saneamento e no monitoramento de áreas abandonadas e espaços vazios nas cidades. O que torna ineficaz a pulverização feita apenas por terra, por equipes a pé ou em vans e a partir das ruas”, explica.

Desde 2004, o SINDAG propõe ao governo brasileiro que os aviões sejam incluídos nas estratégias de controle do mosquito. E desde dezembro a entidade aguarda uma resposta ao pedido de audiência (o mais recente) com o Ministro da Saúde, Marcelo Castro. A proposta do sindicato aeroagrícola é que o método seja avaliado em uma área-piloto, em parceria entre as duas entidades, para em seguida ser utilizado em todo o País, com os ajustes e observações colhidas a partir dos testes.

“Nesses 12 anos em que estamos propondo essa solução, os casos de dengue no Brasil saltaram de 70 mil em 2004 para 1,6 milhão em 2015 (de acordo com o próprio Ministério da Saúde). Somando todos os anos, foram mais 8 milhões de casos de dengue”, completa Paim. O presidente do SINDAG cita também vírus zika, que desde ano passado já soma 3.396 casos de microcefalia, confirmados ou sob investigação.

 

Voo

De acordo com Paim, o combate a vetores com avião é uma técnica aprovada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e utilizada nos Estados Unidos, México e diversos outros países. Entre as vantagens, estariam a capacidade do avião de atingir pontos que as equipes em terra não conseguem cobrir, como fundos de terrenos baldios ou construções abandonadas e áreas longe de vias públicas. Além do fator velocidade – um avião consegue cobrir o equivalente a 500 quarteirões por hora (o que não dá tempo dos insetos se deslocarem).

Diferente do voo em lavouras, onde o avião agrícola passa a apenas três metros de altura sobre a plantação, o voo de combate a mosquitos é feito a uma altura de 40 ou 50 metros acima das casas. E inseticida é aplicado com a técnica de Ultrabaixo Volume (UBV) de modo que se torna quase invisível visto do chão – a uma taxa de 400 ml por hectare (cerca de um quarteirão).

 

Experiência bem sucedida

“Em 1975, o Brasil teve uma das mais bem-sucedidas operações de combate a mosquitos em sua história, na qual a aviação agrícola ajudou eliminar um surto de encefalite que assolava a Baixada Santista, em São Paulo”, recorda Paim. Entre março e junho daquele ano, os municípios de Mongaguá, Peruíbe e Itanhaém registraram 495 casos da doença, que era espalhada pelo mosquito culex.

Uma ação decisiva da Superintendência de Controles de Endemias (Sucen) de São Paulo reverteu a situação, combinando ações de educação para eliminar criatórios de mosquitos nas casas, algumas operações em terra e uma ação abrangente com aviões agrícolas. “Foram três aplicações em quatro semanas, aplicando pelo ar o mesmo inseticida dos fumacês. E os focos foram eliminados”, ressalta o presidente.

Com pouco mais de 2 mil aviões (incluindo os aviões dos bombeiros do DF), o Brasil tem a segunda maior frota de aviões agrícolas do mundo. Segundo estimativas do SINDAG, pelo menos metade dessa frota já teria condições de ser usados no combate a mosquitos.

 

Prevenção

Vale lembrar que em nenhum momento a aplicação de inseticida substitui o trabalho de prevenção, que deve ser feito pela comunidade para eliminar os focos de larvas do inseto – não deixar pneus ou potes vazios com água, colocar areia nos pratinhos dos vasos de flores, etc.

Isso porque o inseticida (aplicado tanto por terra como por ar) é sempre complementar – serve para quebrar o ciclo de reprodução eliminando os insetos adultos. Quando temos muitos casos da doença, é sinal que há muitos insetos adultos em ação e aí é preciso uma ação massiva para diminuir essa população.

Mais ou menos como se “estourasse o orçamento” de mosquitos além da capacidade de controle pelas próprias famílias. E aí fosse necessária a intervenção das equipes com inseticida para “baixar a cota” de mosquitos voando. E colocar tudo novamente dentro do alcance da prevenção feita de casa (vale ressaltar: sempre indispensável).

 

Custo

Não há um comparativo preciso do custo da aplicação aérea frente ao das equipes em terra. O que poderia ser avaliado na hipótese do Ministério da Saúde aceitar a operação em áreas de teste. Em 2008, o SINDAG chegou a estimar que as aplicações por terra custariam 19 centavos por residência, contra 22 centavos do avião. Mas isso não levava em conta o custo de aquisição de caminhonetes, bombas costais motorizadas e outros apetrechos da aplicação terrestre.

A realização de uma área piloto serviria também para levantar esses valores mais precisamente. E mais: na hipótese do custo mais elevado da aviação, o tira-teima serviria ainda para o fator benefício: não adianta ser mais barato uma aplicação por terra e ser necessário cinco delas para equiparar, em eficácia, a uma operação com avião.

Fonte: Agro Link